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Inspiração de Tonico e Tinoco: Conheça a cruz de Chico Mineiro no Caminho de Cora Coralina

Há um momento em que o Caminho de Cora Coralina parece deixar de ser apenas uma trilha. Perto da chegada à cidade de Goiás, entre estradas de terra, pastagens e as ruínas de um antigo arraial do ciclo do ouro, uma cruz de madeira interrompe a paisagem. Cercada por flores e protegida por uma pequena cerca, ela convida o visitante a desacelerar. Para quem conhece a velha moda de viola, aquele não é apenas um cruzeiro perdido no Cerrado. É a Cruz de Chico Mineiro, nome popular de Francisco Ribeiro, personagem imortalizado por Tonico e Tinoco em uma das canções consideradas mais importantes da música sertaneja de raiz.

O local voltou a chamar atenção após um vídeo publicado na semana passada pelo influenciador Marcos Silva, que percorreu o Caminho de Cora Coralina e apresentou aos seguidores um dos pontos mais simbólicos da rota turística goiana. “Chico Mineiro foi baleado a mais ou menos um quilômetro daqui, nas ruínas de Ouro Fino. Pegou seu cavalo, baleado, veio cavalgando e caiu nesse local [cruz]. Quando vieram caçar ele, o acharam sem vida. Há uma cruz onde até hoje o pessoal deixa flores, acende velas, onde o boiadeiro caiu morto. Lançada em 1946, “Chico Mineiro” se tornou o primeiro grande sucesso nacional da dupla Tonico e Tinoco e ajudou a consolidar a moda de viola como uma das principais expressões da cultura popular brasileira.  

Na canção, dois boiadeiros viajam pelo sertão goiano para negociar gado durante uma Festa do Divino. A viagem termina de forma trágica quando Chico Mineiro é morto. Somente depois, ao conferir os documentos do companheiro, o narrador descobre que os dois eram irmãos, separados pela vida sem jamais terem sabido disso. Entre história e tradição oral, o personagem acabou incorporado ao imaginário goiano. O inventário da Goiás Turismo aponta Ouro Fino como o cenário da narrativa que inspirou a música, tornando a cruz um lugar de memória para visitantes, violeiros e peregrinos do Caminho de Cora Coralina.

Onde o ouro encontrou a viola

Muito antes de a música existir, Ouro Fino já ocupava um capítulo importante da história de Goiás. Fundado em 1727 por Bartolomeu Bueno da Silva Filho durante a corrida do ouro, o arraial foi um dos primeiros povoamentos do estado. Com o esgotamento da mineração, acabou sendo abandonado, restando apenas vestígios das construções que marcaram o início da ocupação da região.   Hoje, quem visita o local encontra alicerces cobertos pelo capim, restos de paredes de taipa e as ruínas da antiga Igreja de Nossa Senhora do Pilar. O silêncio contrasta com a importância histórica daquele chão, que já reuniu garimpeiros, tropeiros e viajantes em busca de ouro.   Em 2021, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) anunciou obras de estabilização das ruínas para preservar o sítio arqueológico e integrá-lo de forma definitiva ao Caminho de Cora Coralina.  

Caminho de Cora

Com cerca de 300 quilômetros, o Caminho de Cora Coralina liga Corumbá de Goiás à cidade de Goiás, atravessando oito municípios, antigos povoados, fazendas históricas e áreas preservadas do Cerrado. O roteiro foi concebido para reunir patrimônio histórico, natureza, gastronomia e literatura, inspirado nos caminhos percorridos por viajantes desde o século XVIII e na obra da poeta vilaboense Cora Coralina.   Não por acaso, Ouro Fino aparece como uma das últimas grandes paradas antes da chegada à antiga Vila Boa. Ali, a poesia de Cora encontra a memória do ciclo do ouro. E, alguns metros adiante, a velha cruz lembra que Goiás também guarda histórias que sobreviveram não apenas nos livros, mas nas canções.

Fonte Mais Goiás

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